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sábado, 2 de junho de 2012

A crise do feudalismo

A crise do feudalismo é um processo de longa duração que conta com uma série de fatores determinantes. Entre outros pontos, podemos destacar que a mudança nas relações econômicas foi de grande importância para que as práticas e regras que regulavam o interior dos feudos sofressem significativas transformações. Essa nova configuração econômica, pouco a pouco, influiu na transformação nos laços sociais e nas idéias que sustentavam aquele tipo de ordenação presente em toda a Europa.
O caráter auto-sustentável dos feudos perdeu espaço para uma economia mais integrada às trocas comerciais. Ao mesmo tempo, a ampliação do consumo de gêneros manufaturados e especiarias, e a crise agrícola dos feudos trouxeram o fim do equilíbrio no acordo estabelecido entre servos e senhores feudais. Essa fase de instabilidade envolvendo as relações servis trouxe à tona um duplo movimento de reorganização dos feudos.
Por um lado, as relações feudais em algumas regiões sofrerem um processo de relaxamento que dava fim a toda rigidez constituída na organização do trabalho. Os senhores de terra, cada vez mais interessados em consumir produtos manufaturados e adquirir especiarias, passavam a estreitar relações com a dinâmica econômica urbana e comercial. Para tanto, acabavam por dar mais espaço para o trabalho assalariado ou o arrendamento de terras em troca de dinheiro.
Entretanto, não podemos dizer que a integração e a monetarização da economia faziam parte de um mesmo fenômeno absoluto. Em algumas regiões, principalmente da Europa Oriental, o crescimento demográfico e a perda da força de trabalho para a economia comercial incentivaram o endurecimento das relações servis. Imbuídos de seu poder político, muitos senhores de terra da Rússia e de partes do Sacro Império Germânico passariam a exigir mais obrigações e impostos da população campesina.
De forma geral, esse processo marcou um período de ascensão da economia européia entre os séculos XII e XIII. No entanto, o século seguinte seria marcado por uma profunda crise que traria grande reformulação (ou crise) ao mundo feudal. Entre 1346 e 1353, uma grande epidemia de peste bubônica (peste negra) liquidou aproximadamente um terço da população européia. Com isso, a disponibilidade de servos diminuiu e os salários dos trabalhadores elevaram-se significativamente.
Esse processo fez com que as obrigações servis fossem cada vez mais rígidas, tendo em vista a escassez de trabalhadores. Os grandes proprietários de terra acabaram criando leis que dificultavam a saída dos servos de seus domínios ou permitia a captura daqueles que fugissem das terras. A opressão dos senhores acabou incitando uma série de revoltas camponesas em diferentes pontos da Europa. Essas diversas rebeliões ficaram conhecidas como “jacqueries”.
No século XV, o declínio populacional foi superado reavivando a produção agrícola e as atividades comerciais. Essa fase de recuperação ainda não foi capaz de resolver as transformações ocorridas naquela época. A baixa produtividade dos feudos não era capaz de atender a demanda alimentar dos novos centros urbanos em expansão que, ao mesmo tempo, tinham seu mercado consumidor limitado pela grande população rural.
Além disso, o comércio sofria grandes dificuldades por conta dos monopólios que dificultavam e encareciam a circulação de mercadorias pela Europa. Os árabes e os comerciantes da Península Itálica eram os principais responsáveis por esse encarecimento das especiarias vindas do Oriente. A falta de moedas, ocorrida por conta da escassez de metais preciosos e o escoamento das mesmas para os orientais, impedia o desenvolvimento das atividades comerciais.
Tantos empecilhos gerados à economia do século XV só foram superados com a exploração de novos mercados que pudessem oferecer metais, alimentos e produtos. Esses mercados só foram estabelecidos com o processo de expansão marítima, que deflagrou a colonização de regiões da África e da América. Dessa forma, a economia mercantilista dava um passo decisivo para que um grande acúmulo de capitais se estabelecesse no contexto econômico europeu.

Por Rainer Sousa
Mestre em História

Por Rainer Gonçalves Sousa

Crise afetará neoliberalismo

quinta-feira, 2 de outubro de 2008, 07:33 | Online

Crise afetará neoliberalismo, dizem analistas

Intervenção dos EUA na economia mostra que ação do Estado é importante para o funcionamento do sistema

Giuliana Vallone, do estadao.com.br

SÃO PAULO - A conseqüência da intervenção do governo norte-americano na economia do país para os fundamentos do neoliberalismo econômico, segundo os quais o mercado financeiro deve se auto-regular e a intervenção do Estado na economia é mínima, divide a opinião de economistas e políticos do País. Enquanto alguns, como o senador Aloizio Mercadante (PT), defendem que a teoria de auto-regulação naufragou com a atual crise financeira, outros, como o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES, afirmam que os problemas no mercado de crédito mostram apenas que o liberalismo econômico tem limites, e que a participação dos governos ainda é um instrumento importante no funcionamento do sistema mundial. O ponto comum na avaliação deles, porém, é que as teorias adotadas hoje não passarão ilesas pela crise.

"O que precisamos é um entendimento correto sobre os limites do liberalismo", afirmou Mendonça de Barros. Para ele, o que está derrotada é uma visão errada do equilíbrio entre a ação de governos e a liberdade dos mercados. "A frase cunhada pelo ex-presidente Reagan - o governo é o problema e não a solução - é que precisa ser enterrada definitivamente", explicou.

Segundo Barros, a teoria econômica não precisa ser mudada, já que a crise "foi motivada integralmente por um delírio especulativo com produtos financeiros". O que seria necessário é buscar um equilíbrio entre restrições legais e auto-regulação, especialmente nos mercados organizados como bolsa de valores e de derivativos financeiros. Ele ressalta, porém, que as regras estabelecidas precisam evoluir com os novos produtos financeiros, para evitar o surgimento de espaços não regulados.

O senador Aloizio Mercadante, por outro lado, acredita que as mudanças são mais profundas que isso. Para ele, "a visão que o Consenso de Washington (conjunto de medidas que previa uma maior liberalização da economia da América Latina, formulado em 1989 por economistas de instituições como FMI, Banco Mundial e Departamento do Tesouro dos EUA) apresentou como pensamento único naufragou nessa crise". "Isso mostra que o pensamento de (John Maynard) Keynes, o papel do Estado como regulador da atividade seguramente terá que retornar", concluiu.

As teorias de Keynes, formuladas em meio à Grande Depressão de 1929, previam o equilíbrio entre o livre comércio e um generoso sistema de proteção do mercado financeiro. Para Mercadante, não haverá estabilidade financeira sem novos mecanismos de controle e regulação do sistema financeiro. Além disso, ele afirma que essa intervenção será exigida pelo povo norte-americano. "Os contribuintes americanos jamais vão aceitar essa socialização das perdas (das instituições financeiras) sem a segurança de que situações como essa não se repetirão com essa gravidade", explicou.

"E as crises sempre ajudam na formulação de teorias econômicas, tanto no sentido da prevenção em relação a crises futuras, quanto de alternativas para superar os impasses que elas patrocinam. Então nós teremos um avanço da teoria", continuou.

Debate

Para o ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda, Luiz Gonzaga Belluzzo, os problemas no crédito demonstram que mercados mal regulados podem apresentar o tipo de comportamento que culmina numa crise financeira. "Certamente essa intervenção (do governo dos EUA) se fez contrariando muitas previsões e opiniões a respeito da forma como os mercados funcionariam, se ajustariam", disse.

Ele afirmou que a turbulência vista nas últimas semanas colocam, "sem dúvida nenhuma", o ideário que provocou essa transformação nos mercados - que sofrem, hoje, uma intervenção mínima dos órgãos reguladores - em questão. "Mas o desfecho disso vai ser determinado por um debate. E a minha expectativa é que esse debate seja muito intenso nos próximos meses, já que vai haver uma pressão muito grande para que a regulamentação seja mais restrita", acrescentou.

Belluzzo explicou que a economia atual foi moldada dessa forma por uma "coalizão de interesses", que teria juntado diversas frações empresas. Esse conjunto de forças foi impulsionado, segundo ele, pelo poder político dos Estados Unidos. "A política americana teve uma importância muito grande ao impor, por exemplo, a liberalização financeira, a liberalização das contas de capital de maneira generalizada nos anos 90, e propor uma articulação produtiva, comercial e financeira que parecia funcionar muito bem", disse.

Para ele, o crescimento contínuo da economia norte-americana ajudou a firmar a impressão de que tudo ia bem e que, então, ao invés de cuidar dos riscos a que a economia estava exposta, era possível aumentar a desregulamentação do mercado. "A evolução disso foi que levou à crise", disse.

Mas, da mesma forma que o modelo atual foi implementado pela força política, afirmou Belluzzo, só ela pode mudar a maneira como funciona o sistema financeiro hoje. "É preciso saber qual é a presença política que se opõe a essa maneira de funcionamento do sistema e a força que ele terá para promover essa transformação. Porque isso não vai ser uma coisa automática. Se você não tiver um arranjo de forças sociais que seja capaz de se opor à continuidade, provavelmente, depois de um curto período, tudo vai voltar a ser como era antes", alertou.

Pacote

Na hora de opinar sobre o pacote de resgate às instituições financeiras desenvolvido pelo governo norte-americano - que prevê recursos de US$ 700 bilhões para comprar ativos podres relacionados ao mercado de hipotecas -, eles são unânimes: o plano ajuda, mas não resolve a crise.

"A utilização de recursos públicos como a bala de prata que vai terminar com a crise. Será um passo importante para a redução da quase histeria que tomou conta de investidores e banqueiros e, com isto, abrir espaço para que o sistema financeiro possa voltar a cumprir sua função dentro de uma economia de mercado", disse Mendonça de Barros.

"Seguramente, os Bancos Centrais, o governo dos Estados Unidos, da União Européia, do Japão, terão que continuar monitorando, provendo liquidez e acompanhando a evolução dessa crise", completou Mercadante.

Para Belluzzo, o plano vai "simplesmente botar um piso para esse derretimento de preços". "Mas a questão central hoje é a contração do crédito", afirmou. "A questão hoje é como é que se desobstrui o crédito, como se recompõe o sistema de forma que as empresas e os consumidores possam ter acesso ao crédito e tenham disposição para gastar. O grave agora é essa paralisia, esse estancamento do crédito nas economias centrais."

Entenda a crise financeira que atinge a economia dos EUA.

 

20/09/2008 - 14h04
Entenda a crise financeira que atinge a economia dos EUA.
da Folha Online.
A crise no mercado hipotecário dos EUA é uma decorrência da crise imobiliária pela qual passa o país, e deu origem, por sua vez, a uma crise mais ampla, no mercado de crédito de modo geral. O principal segmento afetado, que deu origem ao atual estado de coisas, foi o de hipotecas chamadas de "subprime", que embutem um risco maior de inadimplência.
O mercado imobiliário americano passou por uma fase de expansão acelerada logo depois da crise das empresas "pontocom", em 2001. Os juros do Federal Reserve (Fed, o BC americano) vieram caindo para que a economia se recuperasse, e o setor imobiliário se aproveitou desse momento de juros baixos. A demanda por imóveis cresceu, devido às taxas baixas de juros nos financiamentos imobiliários e nas hipotecas. Em 2003, por exemplo, os juros do Fed chegaram a cair para 1% ao ano.
Em 2005, o "boom" no mercado imobiliário já estava avançado; comprar uma casa (ou mais de uma) tornou-se um bom negócio, na expectativa de que a valorização dos imóveis fizesse da nova compra um investimento. Também cresceu a procura por novas hipotecas, a fim de usar o dinheiro do financiamento para quitar dívidas e, também, gastar (mais).
As empresas financeiras especializadas no mercado imobiliário, para aproveitar o bom momento do mercado, passaram a atender o segmento "subprime". O cliente "subprime" é um cliente de renda muito baixa, por vezes com histórico de inadimplência e com dificuldade de comprovar renda. Esse empréstimo tem, assim, uma qualidade mais baixa --ou seja, cujo risco de não ser pago é maior, mas oferece uma taxa de retorno mais alta, a fim de compensar esse risco.
Em busca de rendimentos maiores, gestores de fundos e bancos compram esses títulos "subprime" das instituições que fizeram o primeiro empréstimo e permitem que uma nova quantia em dinheiro seja emprestada, antes mesmo do primeiro empréstimo ser pago. Também interessado em lucrar, um segundo gestor pode comprar o título adquirido pelo primeiro, e assim por diante, gerando uma cadeia de venda de títulos.
Porém, se a ponta (o tomador) não consegue pagar sua dívida inicial, ele dá início a um ciclo de não-recebimento por parte dos compradores dos títulos. O resultado: todo o mercado passa a ter medo de emprestar e comprar os "subprime", o que termina por gerar uma crise de liquidez (retração de crédito).
Após atingir um pico em 2006, os preços dos imóveis, no entanto, passaram a cair: os juros do Fed, que vinham subindo desde 2004, encareceram o crédito e afastaram compradores; com isso, a oferta começa a superar a demanda e desde então o que se viu foi uma espiral descendente no valor dos imóveis.
Com os juros altos, o que se temia veio a acontecer: a inadimplência aumentou e o temor de novos calotes fez o crédito sofrer uma desaceleração expressiva no país como um todo, desaquecendo a maior economia do planeta --com menos liquidez (dinheiro disponível), menos se compra, menos as empresas lucram e menos pessoas são contratadas.
No mundo da globalização financeira, créditos gerados nos EUA podem ser convertidos em ativos que vão render juros para investidores na Europa e outras partes do mundo, por isso o pessimismo influencia os mercados globais.
Foi esse o efeito visto em setembro do ano passado, quando o BNP Paribas Investment Partners --divisão do banco francês BNP Paribas-- congelou cerca de 2 bilhões de euros dos fundos Parvest Dynamic ABS, o BNP Paribas ABS Euribor e o BNP Paribas ABS Eonia, citando preocupações sobre o setor de crédito "subprime" (de maior risco) nos EUA. Segundo o banco, os três fundos tiveram suas negociações suspensas por não ser possível avaliá-los com precisão, devido aos problemas no mercado "subprime" americano.
Depois dessa medida, o mercado imobiliário passou a reagir em pânico e algumas das principais empresas de financiamento imobiliário passaram a sofrer os efeitos da retração; a American Home Mortgage (AHM), uma das 10 maiores empresa do setor de crédito imobiliário e hipotecas dos EUA, pediu concordata. Outra das principais empresas do setor, a Countrywide Financial, registrou prejuízos decorrentes da crise e foi comprada pelo Bank of America.

Bancos


Bancos como Citigroup, UBS e Bear Stearns tiveram prejuízos bilionários decorrentes da crise. Na semana que passou, uma nova onda de abalos afetou Wall Street.
O banco de investimentos Lehman Brothers não recebeu ajuda do governo, como a que foi destinada às duas maiores empresas hipotecárias americanas, a Fannie Mae e a Freddie Mac --que no dia 7 deste mês receberam a promessa de uma ajuda de até US$ 200 bilhões do Departamento do Tesouro.
As duas hipótecárias possuem quase a metade dos US$ 12 trilhões em empréstimos para a habitação nos EUA; no segundo trimestre, registraram prejuízos de US$ 2,3 bilhões (Fannie Mae) e de US$ 821 milhões (Freddie Mac).
Já o Lehman vinha procurando uma fonte de crédito para poder honrar seus compromissos, mas não teve sucesso. O banco chegou a procurar outras instituições interessadas em adquirir uma participação e o KDB (Banco de Desenvolvimento da Coréia do Sul, na sigla em inglês) até se interessou em negociar a princípio, mas a negociação terminou sem acordo. Sem alternativa, o banco entregou à Corte de Falências do Distrito Sul de Nova York um pedido de concordata.
O Merrill Lynch foi vendido ao Bank of America para não ter o mesmo destino. A seguradora americana AIG foi outra que quase quebrou, mas foi salva por um empréstimo de US$ 85 bilhões do Fed, em troca do controle da empresa. Acionistas da AIG, no entanto, tentam evitar transferir o controle.

Combate


O governo agiu no início do ano com a aprovação de um pacote de de US$ 168 bilhões de estímulo, que incluiu o envio de cheques de restituição de impostos a milhões de norte-americanos. O temor era de que o país pudesse cair em recessão.
Desde então, a ajuda do governo se tornou mais freqüente. Em março deste ano, o banco Bear Stearnms, também afetado pelas perdas com papéis ligados a hipotecas de risco, teve de ser vendido, e o Fed ajudou a financiar a operação de compra efetuada pelo JP Morgan.
Nesta semana, seis dos principais bancos centrais do mundo também tomaram a iniciativa de se juntar para oferecer liquidez ao sistema financeiro e evitar que os mercados de crédito ficassem paralisados.
O passo mais recente na série de medidas do governo dos EUA foi um pacote de até US$ 700 bilhões do governo, para comprar títulos hipotecários de risco, enxugando esses papéis de risco do mercado. A decisão de elaborar o pacote foi decidida na quinta-feira (18). O presidente Bush se manifestou a favor da medida: "É um pacote grande porque se trata de um problema grande", afirmou.

A CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: IMPACTOS SOBRE O BRASIL

Rafael Souza Lopes (1)
gurilei@yahoo.com.br
Eduardo Mauch Palmeira (2)
eduardopalmeira@brturbo.com.br

RESUMO

O presente texto trata da crise internacional e sua relação com o Brasil. Visto que, apesar dos mecanismos de contenção por parte dos governantes, já podemos sentir as conseqüências dessa crise se refletindo em todos os países, inclusive no Brasil. Já não podemos mais dizer que desconhecemos as causas da crise econômica e de juros aqui no Brasil. A pergunta é: como enfrentar essa crise internacional?

Palavras-chave: crise política, economia mundial, desenvolvimento, comércio exterior, Estados Unidos.


Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato:

Souza Lopes y Mauch Palmeira: "A crise financeira mundial: impactos sobre o Brasil" en Observatorio de la Economía Latinoamericana, Número 105, 2008. Texto completo en http://www.eumed.net/cursecon/ecolat/br/



A ciranda financeira dos mercados desregulados agrava a instabilidade global que ronda a economia internacional. Uma vez mais, os Estados Unidos frearam a ajuda dos países vizinhos, para impor as suas regras através do Fundo Monetário Internacional (FMI). Já no início de 2007 surgiam os primeiros sinais dessa crise aguda naquele país, o que não demorou muito a acontecer. A crise estava aí e não demorou muito para que seus efeitos fossem sentidos no mundo inteiro.

Todos sabem que o Fundo é uma agência obsoleta para os propósitos de regulação financeira internacional, que se limita a seguir a orientação do Tesouro americano. Este tenta impor as regras, mas não funciona bem como emprestador internacional de última instância. Na verdade não pode fazê-lo porque é devedor e não credor, como no após guerra. Entretanto, o maior país credor da atualidade, o Japão, aprofunda sua crise e a banca japonesa, por razões de equilíbrio patrimonial, ameaça retirar o dinheiro investido em títulos da dívida pública americana. Assim a instabilidade cambial internacional aumenta e os mercados financeiros desregulados contaminamse uns aos outros, podendo, no caso de agravar-se a crise japonesa, conduzir a uma crise global.

Outros sintomas da crise internacional começam a aparecer. Previsões recentes reduzem pela metade o crescimento em alguns países. Segundo previsões otimistas, como as do Fundo Monetário Internacional, os mercados financeiros só estarão plenamente restabelecidos a partir de 2010. A despeito da dificuldade de avaliação, não há dúvida que a crise provocou e provocará fortes impactos negativos na produção e no comércio mundial.

No âmbito da economia mundial, algumas previsões dão conta da desaceleração do crescimento que passará de 4,9%, em 2007, para 3,7% e 3,8%, respectivamente em 2008 e 2009. Existe ainda o cenário de que o crescimento mundial possa ficar abaixo de 3% em 2008 e 2009. Se estivermos diante de uma crise de insolvência, provavelmente se materializará o cenário desfavorável, representando o fim da atual fase de expansão da economia mundial. No que diz respeito à economia dos EUA, principal “locomotiva” do sistema, verificou-se a rápida e forte desaceleração do nível de atividade, dado que a crise mobiliário-financeira afetou negativamente o consumo das famílias e os investimentos totais, mais especificamente os investimentos em residências. As previsões do FMI para a economia dos EUA são de que o PIB deverá crescer apenas 0,5% e 0,6%, respectivamente até o final deste ano e também em 2009. Cenário este que caracterizaria uma prolongada fase de recessão econômica.

Além disso, os preços de exportação da indústria de informática despencam. Os preços do petróleo, cobre, grãos, estão em queda livre por excesso de oferta, apesar das baixas taxas de juros. A deflação de ativos está conduzindo à recessão e deflação de preços. A situação tornou-se crítica a tal ponto que em janeiro de 2008 o presidente Bush anunciou um pacote de incentivos fiscais da ordem de US$ 150 bilhões. O pacote de incentivos fiscais constitui-se na restituição de impostos, a milhões de contribuintes.

Por outro lado, as explosões atômicas da Índia e do Paquistão indicariam, na opinião de muitos analistas, que a crise não se limita aos aspectos financeiros e comerciais e avança também nos aspectos políticoestratégicos, pondo em questão a 'pax americana'. Ambas as tendências assustam a China, que reclama da falta de providências dos Estados Unidos na crise financeira asiática, mas não está disposta a submeter-se às regras de abertura descontrolada nem aceitar a arbitragem nuclear unilateral dosEstados Unidos na Ásia.

Tomando distância da conjuntura interna e olhando a longo prazo, dá para perceber que o Brasil – mesmo com economia menor e mais dependente do comércio exterior – teria mais possibilidades de resistir do que outros países e de ultrapassar a crise. Não por razões macroeconômicas, já que os desequilíbrios neste setor são violentos, mas porque é um dos poucos países que ainda podem enfrentar uma modificação no seu modelo de desenvolvimento de forma incorporadora, mudando o comportamento de submissão ao 'pensamento único' e às práticas neoliberais. As possibilidades de reorientar a alocação de recursos para aproveitar o potencial de crescimento do mercado interno de produtos básicos e de bens e serviços não transacionáveis são reais. Igualmente existem oportunidades de aumentar a eficiência e a divisão de trabalho com os países vizinhos da América do Sul tendo como base o Mercosul. No Brasil, as grandes massas nunca tiveram um destino minimamente claro via acesso à propriedade da terra, à educação e a uma relação salarial estável e progressiva, que foram os instrumentos mais importantes de incorporação em qualquer sociedade moderna. Analistas e economistas brasileiros mais otimistas tem argumentado que a atual crise financeira nos Estados Unidos tende a ter efeitos diretos de pequeno impacto sobre o Brasil.

Todos os países centrais trataram de estimular esses caminhos de integração, não apenas para expandir os respectivos mercados internos, mas para aumentar a própria capacidade de defesa, através da formação de povos de cidadãos. Aqui, nas crises, sempre “fugimos para a frente”, buscando defender os interesses das elites regionais e nacionais e ignorando os interesses e necessidades da maioria da população. Do ponto de vista da sociedade, construímos um país que só obteve êxito do ponto de vista do capital. Durante décadas crescemos mais do que todos, ora com democracia formal, ora com ditadura, mas nunca com democracia de massas. O povo assistiu embasbacado à Proclamação da República, ao golpe de Vargas, à morte do mesmo Vargas e ao golpe de 1964. Só deixou de estar paralisado a partir de 1977, quando participou ativamente da luta contra a ditadura e pelos direitos sindicais e sociais. Começamos a nos mover na rua por direitos há pouco tempo. O teste da democracia, entre nós, ainda não está terminado. Liquidamos a ditadura para tentar virar uma nação de cidadãos, mas aos poucos fomos perdendo esta perspectiva.

Hoje, frações do povo brasileiro lutam em todos os horizontes e só conseguem ganhar perspectiva e esperança nas eleições presidenciais. Lutam por direitos do cidadão, típicos do século XVIII, por direitos sindicais típicos do século XIX e por direitos sociais do século XX. Este século em muitos aspectos foi terrível, é verdade, mas também trouxe conquistas, que estão ameaçadas pelo atual domínio do capital financeiro internacional. Os trabalhadores estão tentando manter essas conquistas. Lutam no terreno dos direitos, sem rejeitar a herança da modernidade, mas ainda não conseguiram se incorporar de vez, até porque os seus representantes políticos nunca tiveram o direito à alternância democrática no poder, que foi a característica fundamental das democracias do século XX.

Os governos recentes foram ficando cada vez mais tecnocráticos a partir da ditadura. Os economistas, mesmo os da sociedade civil descontente, ficam buscando um 'modelo', quando a situação social e a crise internacional não permitem 'modelos', mas sim requerem opções e políticas claras a favor do povo. A pergunta é: como enfrentar a crise internacional? O Governo declara não saber o que fazer enquanto uma parte das elites progressistas que o acompanha, cada vez mais cansada de sua fatuidade, percebe que o 'modelo' está fazendo água em todo o mundo e parece optar pela visão de Keynes de que "qualquer coisa é preferível ao que os relatórios financeiros chamam de 'melhor opinião de Wall Street”. Em minha opinião, a atual crise internacional só pode ser enfrentada resistindo, negociando com seriedade, pondo os vastos recursos produtivos e a poupança forçada dos trabalhadores -que estão sendo desperdiçados -a favor de projetos que gerem emprego, modernizem as infraestruturas básicas e garantam a universalização dos direitos sociais. Esta é a matriz básica a partir da qual devem desdobrar-se todos os projetos concretos. Segundo previsões otimistas, como as do Fundo Monetário Internacional, os mercados financeiros só estarão plenamente restabelecidos a partir de 2010. Por isso, não há dúvida que a crise provocou e provocará fortes impactos negativos na produção e no comércio mundiais.

A Oposição tem um projeto nacional afirmativo claramente identificado com os interesses do povo brasileiro. Quaisquer que sejam as turbulências que nos atinjam, temos condições objetivas de levá-lo adiante, desde que se atue com determinação, utilizando os recursos primordialmente para melhorar a situação dos de baixo. O Brasil é um país continental, tem potencialidades de desenvolvimento, tem condições objetivas que independem do capital especulativo, que independem da globalização. Tem condições de dar alimentação, vestuário, calçado, escola e um mínimo de saúde e seguridade social à sua população. Embora possa levar algum tempo, existem condições objetivas de converter o país numa nação, como o fizeram, aliás, vários países no mundo, nas crises internacionais anteriores e nas situações mais diversas de desenvolvimento e organização social da produção e sistema político.

Não creio que com a extensão e profundidade da atual crise as elites de poder tenham condições de, uma vez mais, 'fugir para frente'. Agora a superação da crise, supõe mudanças efetivas na alocação dos recursos e reformas distintas das apregoadas pela ordem neoliberal, que só fazem ampliar o fosso da dependência e da apartação social e econômica. Não podemos mais delegar os destinos do país às tradicionais elites nacionais ou internacionais. A extensão, a profundidade e as conseqüências da crise ainda são elementos de difícil avaliação, haja vista a dificuldade de se saber se a crise é de liquidez ou de solvência dado que as perdas dos bancos comerciais e de investimentos podem ser ainda maiores do que as estimativas recentes.

Mais uma vez, a crise econômica nos Estados Unidos não se daria, contudo, sem afetar diretamente a autonomia dos demais países do mundo, incluindo o Brasil. Em face de tais fatos dessa crise na economia mundial e seus efeitos sobre a dimensão de um país, como o Brasil, deve haver um esforço conjunto de análise, à luz dos interesses do povo brasileiro. Desta vez, o povo tem que se posicionar frente ao mundo em relação à crise, que não interessa de forma alguma somente aos Estados Unidos, e como já foi dito, já não podemos mais dizer que desconhecemos as causas da crise econômica e de juros aqui no Brasil.

Nossos governantes precisam estar dispostos a atuar ativamente mostrando que também tem condições de lidar com a crise, criando possibilidades em participar de decisões no que se refere a economia do Brasil, para evitar ainda mais uma desaceleração e um menor crescimento da economia em nosso país.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Jornal Zero Hora. Crise econômica já chegou ao bolso do brasileiro. Porto Alegre, 11 de novembro de 2008.

_____ . Governadora prevê que crise mundial atingirá o RS. Porto Alegre, 2 de outubro de 2008.

_____. Ministro diz que crise mundial não prejudicará mercado de trabalho brasileiro. Porto Alegre, 20 de outubro de 2008.

Diário Catarinense. Edição online. Especialista explica como a crise econômica mundial afeta o bolso do brasileiro. Florianópolis, 29 de setembro de 2008.

Canal Rural (Reportagem). Crise econômica e retração do consumo entram em pauta durante a Sial 2008. 29 de outubro de 2008.

NOTAS

1. Acadêmicos do MBA Gestão Estratégica de Negócios- Faculdade Atlaântico Sul de Pelotas – AESA
2. Economista e Especialista em T.I. (UCPel-RS/Brasil), Economista da Universidade Federal do Pampa-UNIPAMPA (Bagé-RS/Brasil), Professor de Economia Empresarial do MBA Gestão Estratégica de Negócios- Faculdade Atlaântico Sul de Pelotas – AESA e Mestrando em Integración Económica Global y Regional- Universidad Internacional de Andalúcia- UNIA-ES (Orientador)